terça-feira, 31 de março de 2015

Sobre o Sarau Inspirações Femininas


"Não se nasce mulher
Torna-se mulher" 
(Simone de Beauvoir)


Roteiro do V Sarau de Música e Poesia
Tema: Inspirações Femininas

1. abertura, texto de Simone de Beauvoir (por Mariângela Diniz)
2. música "Feminina", de Joyce Moreno (por Flávia, Juliana e Cida Santos)
3. texto "Sou como você me vê", de Clarice Lispector (por Juliana Santos)
4. música "Ouça", de Maysa (por Gilza)
5. poema "Cansei de contos de fada!", de Anízia Caldeira (por Anízia Caldeira)
6. música "Por causa de você", de Dolores Duran (por Gilca Torres)
7. música "Castigo", de Dolores Duran (por Maruza)
8. poema "Meu destino", de Cora Coralina (por Rita)
9. música "A noite do meu bem" (instrumental), de Dolores Duran (por Vitória e Lucielle)
10. poema "Canção do amor perfeito", de Cecília Meireles (por Maria Tereza)
11. música "Meu vício é você", sucesso da cantora Alcione (por Alice Entreportes)
12. poema "Não vou mais lavar os pratos", de Cristiane Sobral (por Maria Helena)
13. música "Eu só quero um xodó", de Anastácia e Dominguinhos (por Bárbara Nunes)
14. poema "O rio São Francisco", de Valdelice Alves (por Valdelice Alves)
15. homenagem às cantoras sertanejas Inezita Barroso e Roberta Miranda, músicas "A saudade mata a gente" e "A majestade o sabiá" (pelas mulheres do grupo Amigos Seresteiros)
16. poema "Todas as vidas", de Cora Coralina (por Fabiane Ribeiro)
17. dança "Ciranda de Cora" (por Grupo Araçá)
18. poema "Mãos marcadas", de Mirtes Mathias (por Iraci)
19. música "Por enquanto", de Renato Russo (por Gabriela Frias)
20. poema "Assim era ela", de Fabiane Ribeiro (por Fabiane Ribeiro)
21. música "Dona Cila", de Maria Gadu (por Gabriela Frias)
22. poemas "Bom dia tristeza", de Lúcia Sopas, e "Remando contra a maré", de Charmene Sopas (por Charmene Sopas)
23. músicas "Caso sério" e "Desculpe o auê", de Rita Lee e Roberto de Carvalho (por Fatchyô)
24. texto "Gaia", de Calyanne Gonçalves (por Calyanne Gonçalves)
25. músicas "Bem que se quis", de Nelson Mota, e "Amor I love you", de Marisa Monte e Carlinhos Brown (por Juliana Castro)
26. Texto "Ser apenas mulher", de Israel Ramos (por Elaine Ramos)
27. poema "Safena", de Elisa Lucinda, e número musical de percussão com o Grupo Baticundum

Exposição de artes e literatura / Cenário:

Anízia Caldeira (ilustrações)
Calyane Gonçalves (instalação literária)
Charmene Sopas (instalação literária)
Cícera Rodrigues (pintura em tela)
Daisy Martins (escultura)
Fabiane Ribeiro (instalação literária)
Jaqueline Almeida (instalação literária)
Juliana Santos (instalação literária)
Kênia Barros (pintura / desenho)
Li Prado (fotografia)
Lúcia Sopas (instalação literária)
Steffani Martins (desenhos)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ana Miranda (Mulher na Literatura)






















Ana Miranda é uma escritora grande importância para a literatura brasileira. Uma escritora de contos, crônicas, literatura infantil, poesia e (sobretudo) uma grande romancista. Com livros publicados em mais de 20 países e inúmeros prêmios por livros como Boca do Inferno (1989) e Dias e Dias (2002), Ana se destaca entre as escritoras contemporâneas pelo volume e qualidade de sua obra. Em seus romances históricos os personagens, fictícios ou históricos, nos fazem viver os enredos e descobrir toda a brasilidade da escritora cearense. 

Livros de Ana Miranda para download

sexta-feira, 6 de março de 2015

Charmene Sopas Porto (Mulher na Literatura)

De família portuguesa, Charmene Sopas Porto tem entre suas inspirações os poetas portugueses Fernando Pessoa e Florbela Espanca, além da admiração pelo trabalho de Chico Buarque. Dessas inspirações, do cotidiano, das coisas vividas, das saudades, das alegrias, da família, do amor e da arte é que Charmene compõe seus versos, como quem tece um bordado de cores e traços delicados.
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Profana

Eu destruí lares
Violei segredos
Revelei verdades
Tirei teu sossego.

Violentei teu corpo
Te induzi a erros
Inspirei desejos
Dos mais puros aos mais obscenos.

Que outras sejam santas...
Eu serei perdida!
Cometi pecados
E jurei mentiras.

Alimentei sonhos
Apontei defeitos
Desnudei a alma
Me mostrei por dentro.

Te amei com garras
Te marquei com dentes
Toda erva daninha
Plantei a semente.

Te levei ao vício,
Virei dependente
Desse amor que é terno
Mas maltrata a gente.

Despi minhas roupas,
Me despi dos medos.
Quebrei tuas regras,
Me tornei descrente.

Vivo de migalhas
Sobras de carinho.
Eu carrego a culpa
Pelos teus pecados.

Eu mereço a cruz
De não te ter comigo,
Pois você é flor
Eu serei sempre espinho.

E apesar de tudo
Visto o meu sorriso.
...E maldita eu seja,
Por ser tão feliz!
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O Livro

O livro emprestado
Fez-me estragos
Só em pensar
Que as mesmas páginas
Que eu folheava
Foram percorridas
Uma a uma
Pelas tuas mãos.

O livro emprestado
Deu-me rubores
Ao imaginar
Que todas as letras,
Detalhadamente,
Foram observadas
E decifradas
Pelo teu olhar.

O livro emprestado
Guardo com zelo, pois
Despertou-me desejos
Ao supor
Teres adormecido
Com ele entre as mãos.

O livro emprestado
Acelerou-me o peito
Deu-me calafrios
Trouxe-me o despeito,
A inveja:
Ele esteve contigo
E eu não.
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Percepção

Eu tiro os óculos
pra nem te ver
Mas seu sorriso
ilumina o dia
e eu me pego 
olhando sem ver
na sua direção.
É inútil tirar os óculos
Pressinto sua presença.
Te vejo com o coração.
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Haicai Secreto

Você nunca saberá dos sentimentos
Escondidos a sete chaves,
Nem dos sonhos e desejos
Camuflados em meus olhares.
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A sua solidão

Tenho pena da sua solidão.
Morar só.
Silêncio de diálogos.
Dormir só.
Sem pés para roçar os pés.
Acordar só.
Sem sorrisos de Bom Dia!
Respeito. 
Eu sei que é opção.
Talvez nem seja...
Tenho pena de toda solidão.
Fazer comida para um só.
Refeição é bom com alguém...
Ter com quem dividir.
Você tem suas plantas e bichos.
Quem os ama sabe:
Nada mais fiel ou 
Mais verdadeiro.
Você não vive exatamente só.
Mas, tenho pena da sua solidão,
Que é planejada, organizada,
Desejada, programada.
Você se preparou para ela.
Tenho pena de toda solidão!
Se eu pudesse
Acabava com a sua, 
Que eu sei que incomoda 
Bem mais a mim
Que a você.
Você lê quando quer,
Ouve a música que quer,
Assiste ao seu programa na TV,
Dorme à hora que quiser...
Você manda em você!
Sentiu na pele:
“Antes só do que mal acompanhado”.
E escolheu ser só.
E eu vivo sempre
Tão cercada, cerceada,
Que chego a ter mais inveja
do que pena 
Da sua solidão!
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Outro Sonho

Sonhei com um homem chorando.
Uma tristeza sem fim.
Choro contido, calado.
E a visão que eu tinha não era a minha.
Eu via como que ampliado.
As lágrimas não caíam em gotas.
Desciam como rios,
Que invadiam o rosto,
Percorriam rugas,
Preenchendo sulcos,
Molhando a face.

... E havia tanta poesia nisso.
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Saudade

No primeiro minuto sem você,
Por 60 segundos fiquei sem ar.

Na primeira hora sem você,
Por 60 minutos saí do ar.

No primeiro dia sem você,
Por 24 horas eu chorei.

No primeiro mês sem você,
Por 30 dias só pensei.

No primeiro ano sem você,
Por 365 dias apenas lembrei.

Achei que ia morrer,
Talvez desmaiar...
Me afoguei em lágrimas,
Pensamento fixo
Em lembranças boas...

No início sofri,
Depois me acostumei
Com essa ausência presente
Ou presença ausente,
Nem sei.

Você está sempre comigo,
Como minha sombra,
Que de noite me envolve
E de dia me acompanha.

A saudade me faz companhia...
Que imenso vazio seria,
Se não existisse
Esse lembrar de você?
 

quinta-feira, 5 de março de 2015

Café Cultural "Entre Mulheres"


Uma tarde reservada para o encontro de mulheres inteligentes, interessantes e sensíveis. Ocasião para discutir a presença da mulher na literatura e nas artes. Teve leituras, roda de conversa, escambo de livros e, é claro, café!

O outro banquete: escambo de livros.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Clarice Lispector (Mulher na Literatura)




















Louca, hermética, mística, genial, inovadora: adjetivos que perpassaram toda obra escrita de Clarice Lispector. De origem pobre, a jovem escritora judia de sotaque engraçado, causa espanto e admiração no cenário da literatura nacional com o lançamento do seu primeiro livro: Perto do coração selvagem. O romance antecederia as principais características das obras subsequentes, a principal delas, o rompimento da lógica cartesiana no romance. Introspectiva para aqueles que não a entenderam, a escritora dá lugar ao pensamento, ao fluxo, escrevendo apenas, como que para salvar a vida de alguém (sem compromissos com o cânone), talvez a dela, como viria a dizer.  Sua escrita é selvagem e convence apenas por ser; suas personagens, assim como sua criadora estão no limiar da descoberta, dos pequenos delitos, das fugas morais, na recriação do mundo e do próprio fazer literário. Em Clarice, biografia e obra se confundem, se misturam, a confissão impregnada nas personagens em terceira pessoa traz em seu cerne um naco grande de carne e essência da escritora, talvez, por isso, ela ficava oca quando terminava de escrever. A palavra para ela é além, é corpórea, matéria vertente, água em fluxo corrente. 

sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto (...). Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com matéria- prima.

Em entrevista ela confirmou minha expectativa ao dizer que para entendê-la era preciso, antes de tudo, sentir, de nada adiantavam as teorias, ela escapava e escapa a qualquer conceituação de gênero. Eu sinto.

Brenda K. Souza

Arte de Anízia Caldeira



Leia também Clarice por Clarice





Clarice não escreveu poemas, mas a sua escrita é tão impregnada de poesia que textos de sua autoria são comumente recitados como se fossem poemas. Assim o fez, por exemplo, o diretor de teatro Fauzi Arap, quando adaptou Perto do Coração Selvagem para o teatro. Assim também o fez Maria Bethânia ao selecionar trechos da obra de Clarice para declamar em seus shows.





Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.
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Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
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E eis que em breve nos separaremos
E a verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia
Eu agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Mas, eu assumo a minha solidão
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa
Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver
E eis que depois de uma tarde de quem sou eu
E de acordar a uma hora da madrugada em desespero
Eis que as três horas da madrugada, acordei e me encontrei
Fui ao encontro de mim, calma, alegre, plenitude sem fulminação
Simplesmente eu sou eu, e você é você
É lindo, é vasto, vai durar
Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida
Mas, por enquanto, olha pra mim e me ama
Não, tu olhas pra ti e te amas
É o que está certo
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Livros de Clarice Lispector para download 

Quase de verdade (infantil)

domingo, 1 de março de 2015

Anízia Caldeira (Mulher na Literatura)

























Ilustradora e poeta de Pirapora/MG, Anízia Caldeira produziu uma série de poemas inspirados em desencontros e desilusões amorosas.


Cansei de contos de fada

Cansei dessa história 
de era uma vez...
Porque o que vem depois
ninguém fala, mas eu sei.

Eu apenas li o livro errado
e talvez me encantei
Mas já voltei à realidade.
Eu me enganei!

Cansei do príncipe encantado!

Que venha então o cara errado
Ou talvez um sapo
Ou não venha ninguém
Sozinha estou muito bem!

Mas, se vier alguém
que seja real, que não seja perfeito
E que tenha defeitos 
pois eu tenho também

(...)
_____________________________

Eu não te esperei 

Você não foi, né?
Eu sei, mais uma vez não deu...
O motivo é o de sempre, e você
simplesmente não apareceu 

Eu compreendo seus motivos
e não te culpo por isso
Não deu pra ir, eu sei
Mas dessa vez foi diferente:
Eu não te esperei.

Vai ver eu cansei...

Eu não fiquei preocupada
como sempre ficava com a sua demora
Também não fiquei olhando o relógio
preocupada com a hora

Você não foi mais uma vez,
Eu sei
Mas dessa vez foi diferente
Dessa vez, sinceramente,
eu não te esperei.
___________________________

Pronto, falei

Eu não tenho mais 20 anos
e na correria da vida
não vivo mais de momentos
Percebi que estou sem tempo
pra viver chorando pelos cantos
e tem coisas que é melhor deixar pra lá
Faz tempo que não sou criança
Ando sem tempo pra brincar.
Decidi que é tudo ou nada
Ou se joga ou para de uma vez
Enfim, é sim ou não
Estou sem tempo pra talvez.

(...)
____________________________


Acabou

Eu já não sinto a sua falta
Posso dizer que não sinto nada
Agora consigo sorrir sozinha
Não preciso das suas risadas

E meus passos
Estão cada vez mais largos
não preciso mais que você
Caminhe do meu lado

Enfim, essa é nossa despedida
De uma certa forma te amarei por toda vida
Mas agora não penso mais em dois, sou apenas eu
Esse é o fim, adeus.


Paranóias Femininas

Estou tão gorda
O armário está cheio de roupas
Mas nada me serve
Ah! Não vejo nada que preste
E olha que é tudo novo
Mas não sei por quê
Eu sempre acho que o que tenho é muito pouco
E esse cabelo?!
Enrola, prende, escova
Já estou fazendo isso
A mais de uma hora
E ainda não ficou bom
Pra variar nunca acerto a cor do batom
E a cor da base nunca é meu tom
E logo hoje essa espinha
Tinha que aparecer
Ai meu Deus!
Será que ele vai perceber
Ainda tem essa cintura
Que nunca afina
Celulite, estrias e gordurinhas
Como é triste minha sina
Como é difícil nascer menina
Estou me arrumando
Desde as sete da manhã
Será que lembrei de combinar a calcinha com o sutiã?
E o sapato?!
Tem que ser aquele do salto mais alto
Mas meu pé ta cheio de calos
Não importa, é esse que vai ser
Pra ficar bonita tem que sofrer
E a bolsa?!
Será que vai combinar
Com minha roupa?
Acho que não, melhor a outra
Ai, o carro já buzinou...
Ai meu Deus, ele chegou
__To pronta!
__Vamos, amor!
Foi a única coisa que ele falou.
Uma hora no chuveiro
Duas horas na frente do espelho
A tarde toda no cabeleireiro...
E ele nem reparou.