terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Festejos Poéticos



Dezembro traz sempre a sensação de encerramento de ciclos e de confraternização. 
Em meio ao clima das festas de fim de ano, pra não fugir à regra, aproveitamos nosso lugar de encontro, a Barraca do Clube na Feira de Artesanato, pra fazer nossos festejos poéticos na forma de um Sarau Solar.
Começa com o Grupo Amigos Seresteiros cantando estribilho "Eu sei que a vida devia ser bem melhor, e será. Mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita, é bonita!".                                                                        A cadência do samba-enredo de Gonzaguinha é entrecortada pela leitura do texto "Rodando" de Adélia Prado:                                        
"tudo que nasce deve mesmo nascer sem empecilho, mesmo que os nascituros formem hordas e hordas de miseráveis e os governos não saibam mais o que fazer com os sem-teto, os sem-terra, os sem-dentes e as igrejas todas reunidas em concílio esgotem suas teologias sobre caridade discernida e não tenhamos mais tempo de atender à porta a multidão de pedintes. Ainda assim, a vida é maior, o direito de nascer e morar num caixote à beira da estrada. Porque um dia, e pode ser um único dia em sua vida, um deserdado daqueles sai de seu buraco à noite e se maravilha. Chama seu compadre de infortúnio: vem cá, homem, repara se já viu o céu mais estrelado e mais bonito que este! Para isto vale nascer."   
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Charmene nos trouxe de presente um poema: "Se eu me perder de mim". Fez também a leitura de um texto da Silvana Dias, "Esfinge":

"Eu não gosto de meias palavras..
Gosto de palavras inteiras.
Meios gestos...
Meias vontades...meias verdades...

Que se dane o autocontrole.
Quero mais é que vida transborde em mim em abundância.
Vivo pela última gota..por um fio de luz.
Será que já posso ficar louca, ou devo apenas sorrir???
Alguém disse isso uma vez.
Vou parar de seguir suas pistas.
Vou parar de tentar ler voce.
Tentar decifrar seu enigma de esfinge.
DECIFRA-ME OU DEVORO-TE.
Pode me devorar"


"às vezes é preciso ouvir a música atentamente para termos certeza que mesmo quando a alma se sente imersa em melancolia camuflada, o coração quer fazer todo mundo dançar." Sintonizando sua percepção com o som do Baticundum, Edson recitou "Metalinguagem", poema inédito.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
Os meninos e meninas do Grupo Baticundum coloriram o ar com Jorge Ben, Tim Maia, Sandra de Sá e outras vibrações de outras cores. Entre um e outro som eu apontei querendo falar da importância das coisas simples e da simbiose entre homem e natureza como um ideal de vida e de arte. Encontrei a síntese desse pensamento em Manoel de Barros:

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa,
Ele me rã,
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua *viola para inverter os ocasos.
 
Jbbbbbbbbbbean Jean me acompanhou com um batuque pantaneiro, num tambor de fitas coloridas, saudando a arte do compositor Félix com versos da moda caipira "Promessa de Violeiro"
                                                                                                                             "Fruta madura que cai
Na "arvre" deixa o engaço
Eu também quando morrer
Quero deixar o que eu faço
Vou deixar minhas modinhas
Todas feitas num compasso
Pra depois da minha morte
Os invejoso não dizer que eu fiz fracasso

Vou deixar moda sentida
De amor, de beijos e abraços
Falando da minha vida
Vou contar esse pedaço
Já quiseram me matar
Por inveja, com balaço
Eu sou que nem boi arisco
Não sai do mato
Pra não cair no laço

Eu gosto do mês de agosto
Que tem tarde de mormaço
Eu pego a minha viola
E nas moda dou um repasso
O meu pinho é de primeira
Não "faio" os dedo nos traço
Que eu canto em qualquer altura
Eu "tando" bom

Meu peito não tem cansaço"
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Lúcia falou do carinho que sente pela cidade que a acolheu na leitura do poema Pirapora, meu amor

Não sei como vim parar aqui.
Localizei um ponto no mapa e vim.
Porque não era ainda dona de mim,
Vim com medo, dúvidas...sei lá.
Mas bastou um por-do-sol, um só
E já eras dona do meu coração!
Tantas cores e luzes preciosas
Misturadas qual paleta de pintor
Ah! Pirapora, quase sem pensar
Já te chamei: meu amor!
Sem sentir, aqui forjei minha história
Foram lutas, lágrimas e sorrisos
Trabalho, trabalho, trabalho...
Mas sempre havia um por-do-sol.
Pirapora quente, de solo fervente
Som de cachoeira acalentando o meu sono
Rio que lava tantas e tantas mágoas
Carrega minhas lágrimas
Para salgar mais o mar...
Como não te amar?
Passeio em tuas ruas com carinho.
E nessa troca, há sempre um sorriso,
Um abraço, um beijo a se ofertar.
Sinto-me aninhada nesse amor.
Aqui quero ser plantada
Quando, a contragosto, me for...
Pirapora de festas, de raças, de fogos
De frutas, de danças, de tradição.
Ando pelo mundo afora
E levo comigo tuas cores.
Meus olhos se encantam
Há muitas maravilhas para se ver.
Mas teu por-do-sol nada iguala,
Está impresso na mente, nos olhos, na alma.
Assim, a palavra se cala...
O que mais pode dizer
Um pobre coração lusitano?
Nada mais, nada menos que:
Pirapora, te amo!"

 
Além de novas artes para colorir a barraca do Clube, Anízia tinha um poema novo pra mostrar: "Conclusão".

Gastei papel, gastei caneta 
Desgastei sentimentos
Perdi Horas do emu tempo te escrevendo
Escrevi cartas pedindo migalhas do seu tempo,
porcentagens de sua atenção
Esqueci o resto do mundo
Fiz de ti minha única inspiração
Fui sincera, abri meu peito
Rasguei em pedaços meu coração
Deixei nas letras sobre o papel
Minha dor transparecer
Elaborei cuidadosamente versos e rimas
Dediquei -os a você
Tudo em vão...
Ingrato. Não leu sequer uma estrofe por  educação.
Como fui tola.
Amei com tanta devoção
Recebi meu pagamento: doses extras da sua ingratidão. 
Só agora entendi, 
Dos versos que te escrevi, não mereces uma só palavra, nem mesmo o pingo do i. iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiEis a minha conclusão."
Eis a minha Conclusão! ............................................. u
Na barraca do Adelinho a poesia também estava presente: versos nossos e do Guimarães Rosa estampam bolsas, lenços e outras lindezas criadas pelas mãos generosas do artista.
O sol já tomava quase toda a praça quando encerramos o sarau, iluminados pela luz do meio dia e dos sorrisos que estampam os rostos de cada um de nós quando estamos juntos. O último sarau de 2015 foi mesmo uma celebração da amizade e da arte que une seresteiros, 'baticundeiros', escritores, tocadores, enfim.

Em 2016 bastará que a gente se encontre pra que se multipliquem cores, poesias e canções. 

Seja este um ano feliz e novo!



*o verso original diz "De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos"
Postado por Rafael Oliveira

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Lugar de LIVRO é na ...?

- "Nossa! Interessante! Já vi livro na escola, em livrarias, bibliotecas,... Livro em ônibus eu nunca vi!"
- "A gente pode levar pra casa?"
- "Pode. Não pode moço?!"
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Uma das experiências mais interessantes acontecidas no nosso projeto de Ocupação Literária foi o lançamento de dois livros de poemas de escritores do Clube.  
Nosso primeiro trabalho coletivo impresso.  Viagem Literária e Cardápio Literário
Ver os livros acontecerem foi uma felicidade enorme.  
Pensamos que o lançamento desses livros não poderia ser algo trivial
Então decidimos que os livros produzidos seriam lançados em lugares pouco convencionais.  
Afinal, lugar de livro é ...
  Clube literário tamboril
... no ônibus - fizemos o lançamento do livro Viagem Literária dentro dos ônibus urbanos que circulam em Pirapora e Buritizeiro.                                               
 ... e nos pontos de ônibus também!
 
... no restaurante - a poesia pode ser um ótimo digestivo. Por isso aproveitamos a hora do almoço para distribuirmos nosso Cardápio Literário no Restaurante Lá em Casa.
 
... na pizzaria -   surpreendemos os clientes da Pizzaria Dona Marieta com um menu cheio de versos para todos os gostos. Tivemos lá uma noite de autógrafos, pizza, boa prosa, abraços quentes, cerveja gelada.      
... na Feira - em meio a Feira de Artesanato de Pirapora realizamos um sarau diurno para lançar nosso Cardápio Literário.
Conseguimos distribuir mais de 1.000 livros durante a semana da Ocupação Literária.

O prazer de publicar um livro de poesia em conjunto com amigos foi ampliado pelo prazer de ver esses livros circulando, conquistando novos leitores, ocupando outros espaços para além das paredes das bibliotecas e das livrarias.
 
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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Sarau na praça

Em outros tempos podia-se assistir, aos pés dos coretos das cidades do interior, às pequenas bandas marciais que faziam soar, solenemente, as melodias típicas dos eventos cívicos que reuniam as famílias nas praças principais daquelas cidadezinhas.

Ainda hoje eles estão lá, os coretos das praças principais das cidades do interior. 

Mesmo que ignorados pelos nossos olhos apressados, resiste neles algo poético, um quê de nostalgia que, mesmo os que não viram as bandas marciais tocarem sobre os coretos, não sabemos explicar.

Em volta do Coreto da Praça dos Cariris, em Pirapora, tem acontecido uma retomada dos momentos de apreciação e vivência da cultura e da poesia que nasce das mãos e do intelecto do povo: todo sábado, pela manhã, o café típico da roça é servido pelas quitandeiras da Fazenda Paco Paco - sabor de casa de avó; ao mesmo tempo acontece a Feira de Artesanato, onde a gente encontra os artistas populares e suas preciosidades feitas à mão, contendo, cada peça, a marca própria de seu artífice.

E por que não inserir a literatura nesse contexto?

Foi o que fizemos: durante a Ocupação Literária, realizada em outubro, fizemos daquele o nosso lugar de encontro. Inauguramos, na Feira de Artesanato, a nossa Barraca Literária realizando um sarau diurno à sombra do Coreto da praça.

Teve música caipira, seresta, declamação e violino. Ao redor, abraços, cores, sabores, encontros, descobertas. Todo sábado, desde então, o ponto de encontro certo para quem quer conhecer um pouco sobre o que o Clube faz. Estamos por lá, próximos ao coreto, numa barraca colorida pelas cores do tecido de chitão, rodeados de livros e de amigos.

Toda cidade do interior tem uma praça principal. 
Toda praça principal tem um coreto. 
Todo coreto, poesia.
O poeta Edson Lopes faz leitura de seus poemas
Amigos Seresteiros
Anízia Caldeira
Dennis Cheqman e Ana Luíza
Douglas Tomaz lê "O Elefante" (Carlos Drummond de Andrade)
Félix Merica e Gabi 
Barraca Literária
Elaine Ramos e Carlos Roberto

* Fotos de Eder Salvador