terça-feira, 10 de novembro de 2015

Sarau na praça

Em outros tempos podia-se assistir, aos pés dos coretos das cidades do interior, às pequenas bandas marciais que faziam soar, solenemente, as melodias típicas dos eventos cívicos que reuniam as famílias nas praças principais daquelas cidadezinhas.

Ainda hoje eles estão lá, os coretos das praças principais das cidades do interior. 

Mesmo que ignorados pelos nossos olhos apressados, resiste neles algo poético, um quê de nostalgia que, mesmo os que não viram as bandas marciais tocarem sobre os coretos, não sabemos explicar.

Em volta do Coreto da Praça dos Cariris, em Pirapora, tem acontecido uma retomada dos momentos de apreciação e vivência da cultura e da poesia que nasce das mãos e do intelecto do povo: todo sábado, pela manhã, o café típico da roça é servido pelas quitandeiras da Fazenda Paco Paco - sabor de casa de avó; ao mesmo tempo acontece a Feira de Artesanato, onde a gente encontra os artistas populares e suas preciosidades feitas à mão, contendo, cada peça, a marca própria de seu artífice.

E por que não inserir a literatura nesse contexto?

Foi o que fizemos: durante a Ocupação Literária, realizada em outubro, fizemos daquele o nosso lugar de encontro. Inauguramos, na Feira de Artesanato, a nossa Barraca Literária realizando um sarau diurno à sombra do Coreto da praça.

Teve música caipira, seresta, declamação e violino. Ao redor, abraços, cores, sabores, encontros, descobertas. Todo sábado, desde então, o ponto de encontro certo para quem quer conhecer um pouco sobre o que o Clube faz. Estamos por lá, próximos ao coreto, numa barraca colorida pelas cores do tecido de chitão, rodeados de livros e de amigos.

Toda cidade do interior tem uma praça principal. 
Toda praça principal tem um coreto. 
Todo coreto, poesia.
O poeta Edson Lopes faz leitura de seus poemas
Amigos Seresteiros
Anízia Caldeira
Dennis Cheqman e Ana Luíza
Douglas Tomaz lê "O Elefante" (Carlos Drummond de Andrade)
Félix Merica e Gabi 
Barraca Literária
Elaine Ramos e Carlos Roberto

* Fotos de Eder Salvador

domingo, 18 de outubro de 2015

Ocupação Literária - Sarau Radiofônico

Uma semana de Ocupação Literária nas cidades de Pirapora e Buritizeiro. Nossa proposta é fazer a poesia espraiar-se pelos quatro cantos das cidades! 
- Por onde começar?
 -Que tal lançar versos e canções pelas ondas da Rádio!?
- Eis!
Foi assim que aconteceu: reunidos nos estúdios da Rádio Pirapora, tivemos um Sarau Radiofônico com leituras, declamações, divagações poéticas, cantorias e risos.
Durante o sarau de sons, versos, melodias e tudo mais o que foi dito, o escritor Geraldo Santana valeu-se dos versos de Fernando Pessoa pra nos lembrar da poesia que está nos interstícios da canção.
"Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia
Uma outra voz
Como que vindo
Nos interstícios
Do brando encanto
Com que o teu canto
Vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo
E diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia
Que não havia,
Se agora a lembro,
Faz-me chorar."

fotos: Alex Versiane


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sarau em noite de Super Lua




Quando combinamos de fazer um sarau na varanda do Adélio não imaginávamos que aquela seria uma noite de Super Lua (evento astronômico onde a lua cheia se encontra mais próxima da terra, e a vemos maior e mais brilhante). 
Suspeito que tenha sido o próprio anfitrião que, para nos presentear, encomendara a São Jorge um luar de prata polida, daqueles luares luzidios que são vistos no céu, sobre o cerrado, em noites quentes. 
Tudo naquele encontro estava de acordo com a beleza e o brilho da lua:
Um painel com a imagem do Buda iluminado recepcionava cada um de nós e serviu como cenário para as apresentações preparadas pelos convidados e pelo dono da casa. 
O Adélio foi quem abriu o sarau, com uma performance poética sobre o texto do espetáculo Brasileiro: profissão esperança, de Antônio Maria. O texto bem-humorado e inteligente ficou ainda mais interessante na apresentação do artista que vestiu-se de descobridor-arlequinal para nos dar as boas-vindas.


"Tem coisas que eu não entendo
Porque Brasil?
Sabem os senhores porque este país se chama Brasil?
Por causa do primeiro pau que Cabral avistou ao desembarcar aqui: o Pau-brasil.
E se esse primeiro pau não tivesse sido o Brasil? Se tivesse sido um pé de mandioca, por exemplo?
O cidadão para dizer que gosta da sua terra, teria que falar “Sou vidrado na Mandioca”.
A senhora, tão interessada no destino da nação, teria todo direito de dizer “Por isso que essa mandioca não levanta!”.
E, para fortuna, nossa Cabral não viu de cara uma mexerica, porque hoje teríamos uma nação de ‘Mexeriqueiros’!
Por esse critério, o do primeiro pau, o nosso país hoje poderia se chamar Pindoba, Mangaba, Aroeira, Jaqueira, Coqueiro, ou simplesmente Coco. Aliás, bonito nome para um país, não é? Coco! Só que, relações diplomáticas com a França, ‘jamé’!
E se Cabral tivesse visto de saída um pé de abacaxi? – Brasília, primeiro de janeiro de um ano qualquer. O presidente que sai, ao passar o governo ao presidente eleito, pronunciou as seguintes palavras: “Excelência, tenho a honra de passar o Abacaxi para vossas mãos".
Nós demos sorte! Hoje poderíamos ser ‘os goiabas’, ‘os abacates’, ‘os bananas’. Nós poderíamos ter o nome de uma fruta qualquer. Imagine, na Copa do Mundo, um placar como esse: Escócia 2 x Carambola 0. 
E, pra fortuna nossa, Cabral não viu de saída, um pau desconhecido, que ele só soubesse identificar por sinônimos. Se assim fosse, hoje, seríamos a República dos Estados Unidos do Cacete."  


"39 anos de batalha, sem descanso, na vida

19 anos, trapos juntos, com a mesma rapariga
9 bocas de criança para encher de comida
Mais de mil pingentes na família para dar guarida
Muita noite sem dormir na fila do INPS
Muita xepa sobre a mesa, coisa que já não estarrece
Todo dia um palhaço dizendo que Deus dos pobres nunca esquece
E um bilhete mal escrito
Que causou um certo interesse

"É que meu nome é
João do Amor Divino de Santana e Jesus
Já carreguei, num guento mais,
O peso dessa minha cruz"
Sentado lá no alto do edifício
Ele lembrou do seu menor
Chorou e, mesmo assim, achou que
O suicídio ainda era o melhor.
E o povo lá embaixo olhando o seu relógio
Exigia e cobrava a sua decisão
Saltou sem se benzer por entre aplausos e emoção
Desceu os 7 andares num silêncio de quem já morreu
Bateu no calçadão e de repente
Ele se mexeu
Sorriu e o aplauso em volta muito mais cresceu
João se levantou e recolheu a grana que a platéia deu
Agora ri da multidão executiva quando grita:
"Pula e morre, seu otário"
Pois como tantos outros brasileiros
É profissional de suicídio
E defende muito bem o seu salário"
(João do Amor Divino - Gonzaguinha)

Quem é de cantar, cantou: Gonzaguinha, Zeca Baleiro, Caetano Veloso, Chico Cesar, Adriana Calcanhoto, Tribalistas, Marcelo Camelo, Raul Seixas e outros compositores foram lembrados. 
Paulo Junio violou seu canto de capoeira acompanhado da percussão de Tuzin e das palmas da geral. 








Elaine recitou um texto do poeta barranqueiro Gardel. Como sempre falando coisas tão íntimas, tão próximas de todos ali no sarau.







“[...] O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.”
(trecho do poema O Homem; as Viagens, de Carlos Drummond de Andrade, lido por Douglas Tomaz)



"Já começa a beijar o meu pescoço
com sua boca meio gelada meio doce,
já começa a abrir-me seus braços
como se meu namorado fosse,
já começa a beijar a minha mão,
a morder-me devagar os dedos,
já começa a afugentar-me os medos
e dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:
vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
vem ele disposto a quebrar meus galhos
e a varrer minhas folhas secas.
Já começa a soprar minha nuca
com sua temperatura de macho,
já começa a acender meu facho
e dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
seu discurso sedutor de renovação,
suas palavras coloridas,
e eu estou na sua mão.
(trecho do poema Ele, de Elisa Lucinda, recitado por Juliana Santos)

Seguiu luminoso o sarau sob a lua cheia: 
A doçura do violão e da voz de Gabi. Canções e histórias divertidas com Fathyô e Adélio. Uma reverência, em forma de poema, aos Catopês do Congado norte mineiro - momento em que Calyanne Gonçalves expressou em versos a emoção sentida nas Festas de Agosto, da cidade de Montes Claros. [...] E depois de embriagados da poesia e da luminosidade daquela noite, dançamos, rimos, cantamos juntos e celebramos o encontro.

Dia seguinte conferi no calendário, só por curiosidade, quando serão as próximas Super Luas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Poesia na Feira de Trocas


Em tempos em que as pessoas valem pelo que podem consumir, um encontro para a troca de objetos e saberes acaba sendo também um convite para discutirmos a contracultura.

Em julho deste ano, dois escritores do Clube, Douglas Tomaz e Calyanne Gonçalves organizaram uma feira de trocas numa praça da cidade. A ideia era realizar um escambo livre e não oneroso entre as pessoas. Foram realizadas oficinas, rodas de conversa, troca de livros, aula de Yoga, entre outras coisas. 
Muitas pessoas compareceram no local e puderam experimentar a sensação da liberdade de intercambiar mais do que coisas, mas saberes, canções, abraços, ideias, poemas. Alguns escritores do Clube recitaram, cantaram, expuseram no varal de poesia.


Duas publicações muito especiais foram lançadas durante a Feira de Trocas: 
Escorre, de Douglas Tomaz
Gaia, de Calyanne Gonçalves
São coletâneas de textos poéticos impressos pelos autores em pequena tiragem, especialmente para serem trocados durante a feira.
Ao escolherem lançar suas produções independentes na feira de trocas, os autores acrescentaram aos objetos que os leitores levaram para casa um valor que vai além do material. O afeto e os sentimentos estão nos versos, no livro-objeto e no abraço que selou cada transação.

Eis alguns poemas compartilhados pelos autores:

Dissolve

par de sapatos se desfaz enquanto caminha
passo a passo partes se soltam
sola
cadarço
por instantes o chão se abre
diluído
morre lentamente
lugar onde pisa
sapatos
pés
sensação de firmeza
morre lentamente
________________________
Contrato

cláusula
desconstruir palavra
ordem
matar palavra
homicídio
palavra morreu
________________________
Correio elegante

Enviou-lhe um coração de
papel vermelho
vermelho e vazio
vazio para que inscrevesse
tudo

após silêncio, escreveu
não te amo
no coração devolvido

(poemas do livro Escorre, de Douglas de Oliveira Tomaz)
________________________


Cicatriz

Cica                                  
Fica                         
Caça                
Trouxa
Você atriz, eu
ferida.
________________________



Ser de peixes


Ser de peixes,
manjar que mata
minha fome, água
que finda a
minha sede,

se for peixe de
oceano me faço
porto para te
aconchegar
se for de rio me
faço pescador
para te pescar

se for de lago
me faço crianças
para te observar

mas, se peixe
virar gente, me
faço mulher para te amar.

(poemas do livro Gaia, de Calyane Gonçalves)

sábado, 18 de julho de 2015

Lançamento do livro Historinhas Integrais em Prosa e Verso

Um livro que nasce da parceria de um educador-poeta e seus alunos. 
Em 2013 o escritor Edson Lopes ultrapassou as paredes da sala de aula e invadiu outros espaços da Escola Municipal Profª Maria Coeli Ribas: pátio, sombras de árvore, quintal, varandas. 
Durante as suas aulas de literatura com os alunos da Educação em Tempo Integral daquela escola, percebeu que as crianças precisavam de tempo para conversar, contar algumas histórias, inventar outras, reinventar a realidade. Foi aí que brincadeiras simples como tentar encontrar formas conhecidas nas nuvens e desenhar personagens se tornaram lúdicos exercícios de crianção literária.
As aulas do professor Edson estimularam as alunos. As histórias das crianças inspiraram o poeta Edson. Juntos, fizeram surgir histórias em prosa e verso, todas elas reunidas em um livro para os pequeninos e para adultos que aprenderam a viajar nos versos e nos universos fantásticos da literatura.
Para lançar o seu livro, na última quarta-feira, o nosso amigo Edson contou com o Clube Literário, com seus alunos e colegas de trabalho da E.M. Profª Coeli Ribas para criarmos um sarau emocionante e alegre.
O Grupo Baticundum (acima) e o Violinista Dennis Cheqman criam arranjo para as músicas do Edson Lopes, com percussão corporal, cup song e canto. 

"E eis que de repente em algum lugar da casa: rec rec rec, rec rec rec
Que barulhinho é esse que a gente ouve?
Se fosse da barriga seria um ronco
Se fosse do sono seria um ronco
Que barulhinho é esse que tira a fome?
Que barulhinho é esse que tira o sono?
Vem de um ratinho que da casa quer ser dono
E: rec rec rec, rói a roupa do rei de Roma
rec rec rec, vai roendo todo mundo
rec rec rec, rói os trapos do plebeu
rec rec rec, xô ratinho vagabundo"

(Música: Peleja de Gente e Rato, de Edson Lopes. Inspirada na crônica "O ratinho curioso", de Fernando Sabino)
Vandeilson declama o poema "Meu lápis"
Meu lápis

Eu tenho um lápis que é bem doidão
olha pro caderno e lhe dá um rabiscão
Um lápis que só me causa problemas,
não faz o dever, só pensa em poemas.

O chato do lápis me envergonha assim:
escreve bilhetes de amor às meninas
e assina meu nome no fim
Durante toda aula desenha na carteira
Eta, lápis doido, só sabe fazer besteira!

Meu lápis é pretinho, pretinho cor de graxa
Quando ele atenta, eu xingo:
- Vá pastar nas mãos da borracha!
Sabrina declama "Cantiga de Rosa"





"... Saiba, um jardim sem rosa 
é qual fogueira sem lume
Perderia muito o ar
sem seu singular perfume"










Douglas Tomaz recitando o texto 
Um morcego diferente

Um dia, nasceu um morcego diferente em tudo, começando pelas órbitas dos olhos, que não eram vazias. Durante o nascimento, a mãe percebeu que o bebê não era cego. Nem tinha radar, pois andava esbarrando em tudo. Nem pendurava em árvores, para ficar de cabeça para baixo. Nem se alimentava de frutas ou de insetos. Toda vez que via sangue, o morcego desmaiava. 
Coitadinho daquele morcego!
O pior foi quando a morcegada toda descobriu que ele não voava e, ao invés de asas, como algumas aves, tinha apenas pés de pato. Foi a maior gozação. O que era aquilo?
O morcego não era um bicho-preguiça, não era um cão, não era um gato, não era muito menos o Batman ou o Conde Drácula. O morcego não gostava da noite e tinha medo de crepúsculo.
O morcego, meu Deus, era um rascunho do rato que roeu a roupa do rei dos rotos.
Geraldo Santana recita o poema Borboleta
"Borboleta bole na folha, aboleta-se,
o que rola endossa o olor
Bela borboleta, ela, talo, folha, pétala,
raiz de lagarta, esboço de flor a voar
Quem te elabora, bela borboleta (?)
bola letra de poesia para brincar."
Alunos do Edson e a Profª Ana Paula - performance
Rafael Oliveira - Leitura do texto "E Palhaço construiu sua casa de palha..."
O escritor Edson Lopes
Participação do músico e professor Lucas Pinheiro
Diretora da E.M. Coeli Ribas
Membros do Clube e equipe da E. M. Coeli Ribas
Grupo Baticundum