sexta-feira, 20 de novembro de 2020

JOÃO SARMENTO - POETA BARRANQUEIRO


Natural de Montes Claros, João Sarmento mudou-se para Buritizeiro em 2018. Nas margens do Velho chico, descobriu-se barranqueiro. Hoje, além de escrever sobre os homens e mulheres ribeirinhos, João compõe sambas e canções impregnadas das influências do cancioneiro típico do vale do Velho Chico. 

Canto da Sereia

A pequena cachoeira do Córrego das Pedras, com sua corredeira de águas rasas e cristalinas
sobre pedras planas, foi, no passado, a localidade ideal pra o trabalho incansável das lavadeiras,
– caboclas e negras- , em sua maioria, que por ali se agrupavam, lavando suas roupas e as dos
moradores mais abastados de Buritizeiro, para ganharem o feijão com arroz, o sustento de suas
famílias.
As antigas lavadeiras do Córrego das Pedras, mulheres heroicas que por ali passaram, merecem
Sempre serem lembradas e homenageadas.

Canto da Sereia

Ah... Garça bela barranqueira,
Ah Se eu pudesse avoar,
Lá por cima da cachoeira,
Do Córgo da Pedra acolá...

Com aquele olhar regateiro,
Danado pra enfeitiçar,
Pra até fazer rapaz solteiro,
Ficar doidim pra casar (bis)

Ah... Garça bela barranqueira,
Me leve pra lá
Pra eu ver e ouvir,
Aquela sereia cantar ...(bis)

Desencalhe
Em torno da figura lendária dos vapozeiros do São Francisco, se desenvolveu um mito machista, de
que o marinheiro tinha uma mulher em cada porto ao seu dispor.
Essa cantiga é para brincar com essa imagem de Dom Juan, de conquistador pai d’égua, atribuída dos
vapozeiros, insinuando que ao fim e ao cabo, não eram apenas os vapores que encalhavam.

Desencalhe
Pois mãe me disse,
Que eu preciso me casar,
Mas tá danado,
Ninguém quer me namorar

Eu inda arranjo um matrimônio,
Pois solteiro é que não fico,
Eu não morro sem casar
Vou é rezar pra Santo Antônio,
Inda ajuntar com São Francisco,
Que é pros dois me ajudar,
Vou marujar feito maluco,
Pirapora a Pernambuco,
Briquitando pra casar.
Não é possível.
Por aí nessas barranca,
Tanta preta, tanta branca
E eu não vou desencalhar

Mas tá danado,
Ninguém quer me namorar.

Vou até rezar no pé da cruz,
Na Lapa de Bom Jesus,
Que eu fiz promessa
E eu vou pagar.
Que se eu casar ainda esperto,
Que se minhas forças não faiá,
Viche!
Eu vou é fazer mais de dez neto,
Pra veinha bajular.

Pois mãe me disse,
Que eu preciso me casar.


Num sab’ocê!?
O título dessa cantiguinha de beira d’água, é uma expressão do dialeto catrumano,
muito usada pelos viventes mais autênticos do vale do grande rio. É um falar conciso, econômico
de letras, para dar sentido a uma indagação, com um leve acento de surpresa, que no português
sisudo seria:_ você não sabia?
Toda cantiga precisa ter um pano de fundo, um cenário e um pretexto para se
desenvolver. Essa cantiga intenciona figurar uma indagação colocada por um nativo das beiradas
do rio, para transmitir um resumo do seu saber, para um turista pouco informado.

Num sab’ocê!?

Num sab’ocê,
De quem é esse rio meu irmão? (bis)
Ele é de São Chico,
Ele é de Zé e é de João.
É de Reimundo?
E todo mundo
Por aí barranca abaixo.

Esse rio é dos minino,
É das minina e das muié,
É o rio dos cabra macho,
É também dos que não é.

Num sab’ ocê,
Pra dond’ é que vai esse rio meu irmão (bis)

É pros cafundó lá do sertão,
Pra matar a fome e a sede
Pra fazer o forró do verde,
Nas terra de Lampião.

Pra fazer o forró do verde,
Nas terras de Gonzagão.
Pra fazer o forró do verde,
Nos cafundó lá do sertão.



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

II Encontro dos Pontos de Leitura

Os Pontos de Leitura são Gelotecas (geladeiras velhas reaproveitadas como armários de livros) que o Clube Tamboril doa para associações que prestam serviços comunitários na área da cultura, educação ou assistência social. Junto com as Gelotecas, cada instituição parceira recebe um acervo de livros e gibis doados pelos leitores.
Em locais inusitados, como o galpão de uma reciclagem, o corredor do mercado municipal ou o hall de entrada de um sindicato, a gente cria uma biblioteca que atende à comunidade, oferecendo mais do que livros para empréstimos. 
Nesses pontos de leitura são realizadas oficinas diversas, rodas de conversa, contação de histórias, cinema comentado, e outras atividades.
As atividades desenvolvidas nos Pontos de Leitura fortalecem os vínculos comunitários e contribuem com o acesso à cultura e à educação. 
Quando criamos o primeiro Ponto de Leitura, em Pirapora no ano de 2015, não imaginávamos que o projeto iria render tantos frutos frutos e tantas parcerias incríveis.
Hoje, temos como parceiros o Grupo de Percussão Baticundum, o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Pirapora (SINDIPIRA), o Mercado Municipal, a Associação dos Catadores e Recicladores de Pirapora (ASCARPI), a Associação Amaê Berimbarte e o Cursinho Revolucionando Pensamentos. 
A articulação dessa rede de agentes comunitários engajados e instituições tão atuantes em diferentes áreas é o nosso maior orgulho e um motivo para comemorar. 
Para celebrar o projeto Pontos de Leitura e as parcerias surgidas a partir desse projeto, a gente realizou em setembro de 2019 a 2ª Edição do Encontro dos Pontos de Leitura.
Não dá pra descrever todos os momentos que vivenciamos nos dois dias de programação. Mas, as imagens desse post darão uma ideia do que foi o nosso encontro.
Na Biblioteca Comunitária Tamboril, recebemos crianças e jovens para uma roda de conversa sobre Educação Integral e Empreendedorismo Social. Além do bate-papo, tivemos apresentações artísticas e roda de capoeira.
Também teve contação de histórias com a Turma da Tia Moranguinho. 
Reunimos artistas de Pirapora e Buritizeiro (MG), Recife (PE), Brasília (DF) e Valparaíso (GO) em um grande sarau que começou na Praça, na sexta-feira a noite, e encerrou no sábado, na Biblioteca Comunitária, onde, além de muita música, tivemos o lançamento de literatura de cordel do poeta popular Gardel.

terça-feira, 9 de julho de 2019

De Korpo aberto para a Kanção

"No dia 23 de junho, aconteceu a oficina sobre as letras das canções do Marku Ribas, que fez parte da programação do Festival Minas Canta Marku, ocorrido no Centro Cultural Banco do Brasil, em BH, durante os dia 19 e 23/06.
O objetivo da oficina era se debruçar sobre as letras das composições do Marku, coisa que ainda não tinha sido feita com o detrimento necessário ainda. Durante o festival aconteceram oficinas sobre vários seguimentos da obra Markuniana (percussão, harmonia, sopros), e nós ficamos responsáveis pelas “letras”. 
A oficina foi pensada pelo Clube Literário Tamboril, a convite da Júlia Ribas, filha do Marku, que nos deu livre acesso ao arquivo pessoal do Marku para que a gente pudesse pesquisar todo o acervo.
Durante meses visitei a casa do artista para pesquisar os encartes originais e selecionar essas canções que a gente iria analisar na oficina.
Como resultado dessa pesquisa, a gente editou um livro chamado DE KORPO ABERTO PARA A KANÇÃO, pra que pudéssemos reunir essas letras. 
Edição artesanal do livro, pela Alecrim Edições (Iago Bastos)
A ideia da Oficina era ouvir as canções, ler as letras e analisar coletivamente essa obra. Foram selecionadas músicas muito importantes na carreira do Marku, como Zamba Ben, Kalimba (dos discos Underground e Autóctone), além de outras não tão conhecidas, como Porto Seguro e Kazumbanda (discos Underground e Marku).
O encontro foi excelente! A gente pode de fato se aprofundar na interpretação das palavras, versos, musicalidade do Marku e na interseção entre poesia e música. Navegar, mesmo, na arte da palavra e da música. 

Os participantes da oficina puderam contribuir. Foi mesmo uma oficina de descoberta da obra do Marku. Descoberta dos sentidos que estão implícitos em suas letras.
A ideia do corpo aberto (que dá título ao livro) é uma ideia tanto de uma postura do Marku em relação à obra dele e à diversidade enorme de influencias que ele recebe e capta na música dele. Mas, também é um corpo aberto nosso, enquanto leitores, diante dessa obra cheia de embocaduras, espinhos, lugares, geografias, possibilidades interpretativas.


Cada participante da oficina saiu dali um pouco mais sensível para as palavras na obra desse compositor.
A oficina cumpriu seu objetivo."

Douglas de Oliveira Tomaz
(Escritor e Professor de Literatura)
Membro do Clube Literário Tamboril
Arte de capa do disco Underground (1973)

sábado, 27 de abril de 2019

Semana do Livro Infantil - Ano III

A literatura, considerando a oralidade, teve origens há muitos milênios atrás, quando o ser humano ainda era nômade e não existia nem mesmo a ideia das letras e da escrita. 
Espanta pensar que, mesmo tendo origens remotas, demorou muito até que fosse criada uma literatura para crianças.

Foi a partir do século XVII que começaram a surgir histórias e contos voltados para as crianças. A princípio, eram contos e histórias para educá-las moralmente, mas, com o tempo, a literatura infantil foi ganhando características que permitem acessar a sensibilidade, garantem entretenimento, facilitam o acesso à cultura, estimulam a imaginação e a criatividade, enfim, livro passou a ser coisa de criança também. 

No Brasil, comemoramos em 18 de Abril o Dia do Livro Infantil. A data foi escolhida em homenagem ao aniversário de nascimento de Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica Pau Amarelo e dos personagens como a boneca de pano Emília, que junto com outros personagens da turma do Sítio, vive diversas histórias criadas para encantar os pequenos leitores.
Na nossa Biblioteca Comunitária e nos Pontos de Leitura, a gente faz questão de destacar a literatura infantil e reservamos todo ano uma semana inteira para celebrar a existência e diversidade que hoje encontramos dentro da produção literária para crianças. 
Nossa gratidão aos mediadores de leitura e contadores de história que nos ajudam a apresentar a literatura infantil para a meninada.








Somos apaixonados por livros (sobretudo pelos livros infantis!). 


Salve os escritores e ilustradores que se dedicam a esse universo! 






Durante a Semana do Livro Infantil de 2019, mais de 250 crianças foram presenteadas com livros infantis novinhos. 
Para muitos deles, foi o primeiro livro.


segunda-feira, 8 de abril de 2019

A Biblioteca Comunitária: Acervo


Uma das características que diferenciam as bibliotecas comunitárias ou populares de bibliotecas públicas é a efetiva participação da comunidade que, por meio de um esforço coletivo, cria e mantém esse espaço cultural para cumprir a função de guardar os livros e de incentivar a leitura, o estudo, a produção literária e científica.
Com trabalho voluntário e sugestões de atividades para a programação da Biblioteca, os usuários colaboram na construção de um ambiente vivo e pulsante. Mas, mais do que nos ajudar a pensar no funcionamento ou na programação, os usuários têm um papel fundamental na formação do acervo da Biblioteca. São eles os 'curadores' e responsáveis pela bibliodiversidade por aqui..
Diariamente recebemos dos leitores e frequentadores da Biblioteca Comunitária Clube Tamboril livros de diversos gêneros e assuntos, literários ou não, que ajudam a compor um mosaico interessante em nossas estantes. 
As placas nas prateleiras dão uma ideia dessa bibliodiversidade:










Nossa gratidão às crianças e adultos que confiam em nós para guardar os livros que um dia foram seus. Cada doação torna a biblioteca um lugar um tanto mais interessante porque tem um pouco de cada colaborador.