Natural de Montes Claros, João Sarmento mudou-se para Buritizeiro em 2018. Nas margens do Velho chico, descobriu-se barranqueiro. Hoje, além de escrever sobre os homens e mulheres ribeirinhos, João compõe sambas e canções impregnadas das influências do cancioneiro típico do vale do Velho Chico.
Canto da Sereia
A pequena cachoeira do Córrego das Pedras, com sua corredeira de águas rasas e cristalinas
sobre pedras planas, foi, no passado, a localidade ideal pra o trabalho incansável das lavadeiras,
– caboclas e negras- , em sua maioria, que por ali se agrupavam, lavando suas roupas e as dos
moradores mais abastados de Buritizeiro, para ganharem o feijão com arroz, o sustento de suas
famílias.
As antigas lavadeiras do Córrego das Pedras, mulheres heroicas que por ali passaram, merecem
Sempre serem lembradas e homenageadas.
Canto da Sereia
Ah... Garça bela barranqueira,
Ah Se eu pudesse avoar,
Lá por cima da cachoeira,
Do Córgo da Pedra acolá...
Com aquele olhar regateiro,
Danado pra enfeitiçar,
Pra até fazer rapaz solteiro,
Ficar doidim pra casar (bis)
Ah... Garça bela barranqueira,
Me leve pra lá
Pra eu ver e ouvir,
Aquela sereia cantar ...(bis)
Desencalhe
Em torno da figura lendária dos vapozeiros do São Francisco, se desenvolveu um mito machista, de
que o marinheiro tinha uma mulher em cada porto ao seu dispor.
Essa cantiga é para brincar com essa imagem de Dom Juan, de conquistador pai d’égua, atribuída dos
vapozeiros, insinuando que ao fim e ao cabo, não eram apenas os vapores que encalhavam.
Desencalhe
Pois mãe me disse,
Que eu preciso me casar,
Mas tá danado,
Ninguém quer me namorar
Eu inda arranjo um matrimônio,
Pois solteiro é que não fico,
Eu não morro sem casar
Vou é rezar pra Santo Antônio,
Inda ajuntar com São Francisco,
Que é pros dois me ajudar,
Vou marujar feito maluco,
Pirapora a Pernambuco,
Briquitando pra casar.
Não é possível.
Por aí nessas barranca,
Tanta preta, tanta branca
E eu não vou desencalhar
Mas tá danado,
Ninguém quer me namorar.
Vou até rezar no pé da cruz,
Na Lapa de Bom Jesus,
Que eu fiz promessa
E eu vou pagar.
Que se eu casar ainda esperto,
Que se minhas forças não faiá,
Viche!
Eu vou é fazer mais de dez neto,
Pra veinha bajular.
Pois mãe me disse,
Que eu preciso me casar.
Num sab’ocê!?
O título dessa cantiguinha de beira d’água, é uma expressão do dialeto catrumano,
muito usada pelos viventes mais autênticos do vale do grande rio. É um falar conciso, econômico
de letras, para dar sentido a uma indagação, com um leve acento de surpresa, que no português
sisudo seria:_ você não sabia?
Toda cantiga precisa ter um pano de fundo, um cenário e um pretexto para se
desenvolver. Essa cantiga intenciona figurar uma indagação colocada por um nativo das beiradas
do rio, para transmitir um resumo do seu saber, para um turista pouco informado.
Num sab’ocê!?
Num sab’ocê,
De quem é esse rio meu irmão? (bis)
Ele é de São Chico,
Ele é de Zé e é de João.
É de Reimundo?
E todo mundo
Por aí barranca abaixo.
Esse rio é dos minino,
É das minina e das muié,
É o rio dos cabra macho,
É também dos que não é.
Num sab’ ocê,
Pra dond’ é que vai esse rio meu irmão (bis)
É pros cafundó lá do sertão,
Pra matar a fome e a sede
Pra fazer o forró do verde,
Nas terra de Lampião.
Pra fazer o forró do verde,
Nas terras de Gonzagão.
Pra fazer o forró do verde,
Nos cafundó lá do sertão.













