sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Lya Luft (Mulher na Literatura)


 
Essa tradutora e escritora gaúcha, de família alemã, desde adolescente se mostrou "desobediente" e contestadora. Sempre foi ávida leitora. Diplomou-se em Pedagogia e Letras. Traduziu diversas obras do Inglês e do Alemão para o Português. Escreve artigos para a revista semanal Veja.
É autora de diversos livros como os romances AS PARCEIRAS (1980), A ASA ESQUERDA DO ANJO (1981), REUNIÃO DE FAMÍLIA (1984), EXÍLIO (1987) e o livro de poemas O LADO FATAL (1989). Em 1996 lançou O RIO DO MEIO (ensaios) que foi considerado a melhor obra de ficção daquele ano. No total, já escreveu e publicou 23 livros, entre romances, coletâneas de poemas, crônicas, ensaios e livros infantis.
Como Lya Luft se define: 

"Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento".
—Lya Luft

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CONVITE

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
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CANÇÃO EM SEGREDO

Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.  

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MATURIDADE

Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.

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AUTO RETRATO

Alguém diz que sou bondosa:
está tão enganado que dá pena.
Alguém diz que sou severa,
e acho graça.
Não sou áspera nem amena:
estou na vida como o jardineiro
se entrega em cada rosa

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O LADO FATAL XV

Não falem alto comigo:
andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto,
se nem sempre entendo as perguntas
com a rapidez de antigamente,
se pareço fatigada
e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico.
Não quero discutir o preço do mercado
nem os grandes mistérios da eternidade.
 

 

Obra poética de Lya Luft aqui 
Baixar o livro O MAR DE DENTRO aqui

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cecília Meireles (Mulher na Literatura)






















Uma escritora atemporal. Cecília Meireles absorveu as influências do simbolismo, romantismo, parnasianismo, classicismo, realismo e surrealismo. Todas essas influências se amalgamam na vasta obra de Cecília. Espectros foi o seu livro de estreia aos 18 anos de idade. Um livro de sonetos simbolistas. Casou. Teve três filhas. Trabalhou como jornalista escrevendo artigos sobre questões da área da educação. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil. Aliás, seus poemas infantis permanecem como referência para os que escrevem para o público infantil. Cecília produziu vasta obra poética sobre diversos temas e de forma fascinante. 

Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
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Herança

Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?
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Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
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Desenho do Sonho

Eu, mulher dormente,
na líquida noite
alargo a ramagem de meus cabelos verdes.
Sigo dentro desse cristal ondulante,
contida como o som dos sinos imóveis.
Surda é a transparência do mundo que ocupo,
onde vago, em vigilância do eterno,
livre do efêmero visível e tranqüila,
e embora incomunicável,
em solidão feliz.
Eu, mulher dormente, de olhos fechados
estou vendo essas paredes fluidas que caminham comigo mesma,
na cristalina arquitetura:
muralha de sucessivos patamares à luz de nenhum sol.
Espelhos de quartzo verde
em que me reconheço admirada, de olhos abertos desde sempre,
para sempre,
desenhando-me involuntária,
buscando-me exata,
fugindo-me nesta caligrafia que não alcanço.
Ah! dos meus verdes cabelos
sobem agora ramos de rosas,
alta coroa de retrato submerso,
frágil e melancólica,
e já me esqueço do que vou sonhando.
E nem suspiro
se as flores se desfolharem nesse planeta de silêncio.


Livros de Cecília Meireles para download Antologia Poética 
                                                          Ou isto ou aquilo  
                                                          Viagem   
                                                          Romanceiro da Inconfidência  
                                                          Olhinhos de Gato

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Adélia Prado (Mulher na Literatura)























Adélia Prado figura entre as grandes escritoras brasileira. Essa mineira de Divinópolis, trabalhou como professora por 24 anos, até o ofício de escritora se tornasse sua atividade central. Em sua obra, em prosa ou em versos, a fé, o cotidiano e a observação da vida sob a ótica feminina se amalgamam para dar forma ao estilo da sua escrita. Não por acaso, Adélia Prado é considerada uma das maiores escritoras da literatura brasileira.

Sedução 
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
( poema de Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 60)
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A Paciência e seus limites

Dá a entender que me ama,
mas não se declara.
Fica mastigando grama,
rodando no dedo sua penca de chaves,
como qualquer bobo.
Não me engana a desculpa amarela:
‘Quero discutir minha lírica com você’.
Que enfado! Desembucha, homem,
tenho outro pretendente
e mais vale para mim vê-lo cuspir no rio
que esse seu verso doente.
(do livro Miserere)
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A invenção de um modo

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.

Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

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Parâmetro

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto sim, é consolo.

By David Nascimento


Ensinamento


Minha mãe achava estudo

a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

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Dona Doida

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

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Bairro

O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
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Janela 

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
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Livros de Adélia Prado para download  Poesias Reunidas
                                                          O Coração Disparado

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Elisa Lucinda (Mulher na Literatura)























Nascida em Vitória/ES, em 1958, é uma artista multitalentosa. Além de jornalista e professora universitária, Elisa atua, canta e escreve. Elisa Lucinda é uma escritora que preserva um modo coloquial de se expressar.
Por ser atriz, acredita no poder da poesia falada. Em seus espetáculos de teatro o texto ganha força na sua voz e interpretação. Elisa é reconhecida pela sua obra poética, com a presença marcante da figura feminina, além do sucessos dos recitais e espetáculos de teatro, dos livros infantis  e pela atuação em prol da popularização da poesia. Seu trabalho vai além da escrita: é fundadora da instituição sócio-educativa Casa-Poema; realiza oficinas de Poesia Falada por todo o Brasil; e atua  em recitais e espetáculos do grupo teatral Companhia da Outra.



Pau de aurora

Olho na praia os homens e seus paus
os homens bons
os homens maus...
Meus Adãos...!
Olho-os todos
meus olhos pincelam seu real
seu genital
seu principal
suas surpresas
Os ricos
Os pobres
Os moles
Os duros
Os puros
Os palhas
os nobres e os canalhas.
Varas de condão
meu irmão, meu tesão
sua boba mão
sua corcunda
seu porte belo
seu amor sincero
sua mão na bunda
Ah, alegria vindoura
Meu sacro-saco
Travesseiro morno, manjedoura.
Meus olhos namoram os homens
pisando pés na areia
banhando-se
exibindo-se
se encervejando todos.
Os príncipes
os sérios
os sábios
os malucos
os síncopes
os sãos
os eunucos.
Olho na praia os homens e seus paus
suas charlas
suas cantadas
suas caras
de pau.
Barbas crescendo
barbas feitas
barbas mal escanhoadas
barbas caprichadas
barbas bem-feitas.
Escuto os homens com suas másculas fofocas:
os patrões, os empregados
as aulas, as produções
o time bárbaro
o gol que deveria ter sido
o amigo enrustido
aquela que comi
aquela que não quis me dar
o pai herói. Não dói.
Gozo de ver na praia os homens e seus paus
as olhadas
as investidas
as brochadas
os tamanhos
as disputas, os enchimentos
a tática.
Ah meus amores, não importa
o tamanho da varinha de condão
importa é a mágica!
Ah meu querido, meu gato
eu nem vou discutir
porque eu não tenho saco.
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Aviso da Lua que menstrua

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!

Hilda Hilst (Mulher na Literatura)















Exercício no 1
Se permitires
Traço nesta lousa
O que em mim se faz
E não repousa:
Uma Idéia de Deus.
Clara como Coisa
Se sobrepondo
A tudo que não ouso.
Clara como Coisa
Sob um feixe de luz
Num lúcido anteparo.
Se permitires ouso
Comparar o que penso
O Ouro e Aro
Na superfície clara
De um solário.
E te parece pouco
Tanta exatidão
Em quem não ousa?
Uma idéia de Deus
No meu peito se faz
E não repousa.
E o mais fundo de mim
Me diz apenas: Canta,
Porque à tua volta
É noite. O Ser descansa.
Ousa.
HILDA HILST, que provocou choque de costumes comportando-se de maneira ousada e provocadora, manifestou-se em público em favor da liberdade feminina tanto no âmbito profissional e artístico como no âmbito amoroso e erótico. Ela esperava se tornar uma excelente pornógrafa e recusava o feminino poetiza, por associá-lo à imagem de moça frágil.
Na década de 90, em uma entrevista concedida a TV Cultura, fez-se a seguinte pergunta para ela: Agora, Hilda, a uma mulher é permitido escrever pornografia?
Hilda respondeu: ‘’não é permitido, mas eu acho que a verdadeira natureza do obsceno é a de converter. ’’
(por David Nascimento)

FILÓ, A FADINHA LÉSBICA
Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe "Filó, a lésbica fadinha".
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até...
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desde que nascia.
Mas à noite... quando dormia...
Peidava, rugia... e...
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois...
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
Da Fadinha Filô.
Faziam fila na Vila.
Falada "Vila do Troço".
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia...
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Seqüestrou Fadinha
E foi morar na Ilha.
Nem barco, nem ponte
O troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os óinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A Vila do Troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a Fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.
(HH, Bufólicas, 1992)

Livros de Hilda para download A obscena senhora D
                                                 O Caderno Rosa de Lori Lamby
                                                 Obra poética reunida

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Maria Luzia Cardoso (Mulher na Literatura)


São milhares de "Marias" e de "Luzias" que estão por aí no interior, nas capitais, nas periferias, escrevendo sobre o que vivem, sentem e vêem. 
Maria Luzia Cardoso é uma poetiza nascida na cidade ribeirinha de Matias Cardoso. Filha de repentista, Maria Luzia desde cedo aprendeu a fazer versos. Seu poema Lamento Negro conquistou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Poesia: NOSSA ARTE. A premiação possibilitou que ela lançasse seu único livro, Lamento Negro. O livro traz poemas sobre relacionamentos, sobre a velhice, fatos do cotidiano, natureza, preconceito e desigualdade social. Viveu em Pirapora/MG boa parte da sua vida. E foi em Pirapora que produziu grande parte da sua obra, influenciando seu filho, o violonista e poeta Luiz Caffé.


Obsessão

Quem me vê assim tão calma
Não sabe que minha alma
Sofre com um mal sem remédio

Ninguém sabe, no entanto, 
Que eu sufoco meu pranto
Nas minhas horas de tédio

Depois da sua partida
Fiquei tão deprimida
Quase perdi a razão

Vou lutar e resistir
E a ninguém mais permitir
Que brinquem com meu coração

No silêncio do meu quarto
Chorando, disse ao seu retrato
O que você ouvir não quis
Mesmo sendo cego e surdo
Esse seu retrato mudo
Sabe que sou infeliz

Se recordar é viver 
Como posso esquecer
A dor da separação?
Embora por você sofrendo
Eu vou acabar vencendo
Esse amor-obsessão. 

Literatura feminina



O próximo sarau do Clube será inteiramente dedicado à música e a poesia produzida por mulheres. 
Este sarau será um convite para conhecermos mais do universo feminino e também para suscitar a discussão a respeito da ampliação dos espaços para a mulher na literatura. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Gaia

Eu sou o chão que pisa, o ar que respira,
sou o sol que lhe ilumina e esquenta, 
sou o frio que lhe castiga
sou o castigo, o vidro que lhe fere
sou o sangue que escorre da sua pele,
sou o remédio que lhe ajuda,
sou o seu veneno e a sua cura,
seu anjo e seu demonio,
tudo que há na razão e tudo mais que for insano,
eu sou o próprio sagrado,
eu sou o profano,
sou o beijo quente de bom dia,
sou a porrada na boca do estômago,
sou a sua casa,
sou a decoração da sua parede,
sou as rosas do seu jardim,
sou a grama que toma todo o espaço das flores e afins,
sou o amor dos seus livros de poesias da cabeceira,
sou o terror do filme que passa na tevê na sexta-feira,
sou o sabor do maracujá que te acalma,
sou a pimenta malagueta que você come sem poder beber água,
sou seu trabalho que lhe sustenta,
sou as pilhas de serviço e números que lhe atenta,
sou o doce,
sou a folha amarga
sou sua amiga,
sou sua inimiga.
Eu sou mulher, eu sou Gaia!
sou a terra e o que mais há nela.


 Texto de Calyanne Gonçalves



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Deusa do Cerrado

Por onde olho,
Vejo pontos coloridos,
Serão seus olhos,
Ou ipês floridos?
Por onde ando,
Sinto o ardor da terra,
Ou será minha boca,
Sedenta por ela?
A cada passo que dou,
Sinto minhas forças se exaurindo,
Ou será a saudade de ti,
Que estou sentindo?
Com sede,
Me sacio em tuas veredas,
Com fome,
Me farto em seu pequi,
E com saudade retorno a ti,
Como um passarinho sem namorado.
Pois tu és Minha Deusa do Cerrado.








Alex Versiane
poema enviado ao Clube Literário em 03 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Poema para os poetas da minha cidade

Na minha cidade somos todos poetas!
Cedo o galo canta tecendo a manhã
E vamos viver o cotidiano como deve ser
Pois não há aqui nada de diferente
A não ser o fato de sermos todos poetas.
O padeiro é um poeta
Rabisca versos no papel de pão
Por isso é mais lido pelas manhãs...
O empresário é um poeta
Embora ocupado no ofício
De sempre bater a meta
Libertou-se da métrica
H
O
J
E
Faz
Poesia
Concreta.
Se há crimes
São todos passionais
E a cada delito o meliante
Deixa em versos sua confissão.
Vai a júri onde o advogado
Faz em rimas decassílabas
A defesa do réu poeta.
A sentença é proferida
Em sextilhas ou redondilhas.
E o juiz, que é poeta,
Usa quadras de cordel
E declama desenvolto
Dando a sentença ao réu.
As putas cobram o dobro
Se o cliente faz rimas ricas.
Nos becos os travestis
Conjugam o verbo erotizar
Sem simbolismo ou romantismo
Criando textos dadaístas
Em sentido figurado.
Outras figuras noturnas
Fazem poesia marginal
Enquanto na gráfica
Imprimem o jornal
Narrando os fatos
Em sonetos, odes e poemas épicos
Que retratam a vida agitada
Da cidade onde só uma coisa é certa:
Leis, notícias, cartas de amor,
Discursos de políticos,
Lição de matemática,
Teses de mestrado,
As palavras de um profeta,
Manuais de instruções,
Tratados de paz,
Declaração de calamidade pública,
Bula de remédio,
Receita e regras de dieta
É tudo subjetivo
E com licença poética.
Cada criança que nasce
Em vez de certidão de nascimento
Recebe do tabelião,
Que é poetiza ou poeta,
Um documento oficial
Que confere ao cidadão
Por lei rimada e irrevogável
O direito de pensar
E de viver como poeta.
(Rafael Oliveira, 16/01/2014)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Lendo nossa história


Grandes livros de 5 escritores Piraporenses. História, crônicas, relatos, poesia. Tudo aí...



Livro Pirapora, 100 anos de história: fatos, fotos e personagens que marcaram a vida da cidade.
Autores: Brenno Álvares da Silva
             Ivan Passos Bandeira da Mota
Ano 2012



Livro Na carreira do rio São Francisco: trabalho e sociabilidade dos vapozeiros.
Autor: Zanoni Neves
Ano 2006



Livro Pirapora, um porto na história de Minas.
Autores: Brenno Álvares da Silva
             Domingos Diniz
             Ivan Passos Bandeira da Mota
Ano 2000



















Livro Rio São Francisco: Vapores e Vapozeiros.
Autores:Domingos Diniz
            Ivan Passos Bandeira da Mota
            Mariângela Diniz
Ano 2009